Conferência Episcopal de Angola e São Tomé

Comissão do clero escreve aos padres

27-07-2015

Aos estimados Sacerdotes do Clero Nacional de Angola
Aceitem que vos saúde em Cristo Jesus e vos augure um santo ministério.
Num dos encontros da Comissão Episcopal do Clero foi sugerida a ideia de por ocasião da Festa do Santo Cura D´Ars, na qualidade de Presidente da Comissão, partilhar convosco uma breve reflexão sobre a nossa vocação sacerdotal. Mas os compromissos de Ordinário de Lugar com as consequentes obrigações de membro da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé dispersaram-me de fazê-lo o ano passado e pela data com que vai assinada esta carta estareis a ver que quase o não iria fazer também este ano.
Não é minha intenção trazer-vos coisas novas mas de recordar-vos apenas aquilo que cada um de vós tão bem sabe sobre este dom cuja beleza Deus nos permite descobrir cada dia que passa nos nossos muitos ou ainda poucos anos de ministério, como este do Santo Cura d´Ars: “Um bom pastor, um pastor segundo o coração de Deus é o maior tesouro que o Bom Deus possa dar a uma paróquia e uma das dádivas mais preciosas da misericórdia divina”. Achei que evitaria devia divagar muito quando bem fresco está ainda o ano Sacerdotal, proclamado pelo Papa Bento XVI, na Cidade do Vaticano na Sexta-Feira do dia 11 de Junho de 2010 que tão fortemente celebramos com a Igreja nas nossas Igrejas trabalhos dos presbitérios das nossas Dioceses. É afinal um simples recordar que vou procurar fazer de alguns dos aspectos da densa riqueza doutrinal da vocação do ministério sacerdotal que o Jubileu dos 150 anos de vida de São João Maria Vianney procurou realçar um pouco mais. E neste sentido parece-me oportuno citar alguns textos como o do Secretário da Congregação para o Clero, Mons. Mauro Piacenza publicado na Cidade do Vaticano com a data de 15 de Outubro de 2009 convidando os Sacerdotes a uma boa vivência intensa do dom do Sacerdócio Ministerial: “Caríssimos irmãos no Sacerdócio, a única razão da nossa vida e do nosso ministério é Jesus de Nazaré, Cristo e Senhor! A existência dos Sacerdotes encontra n’Ele, e somente n’Ele, a origem e o fim próprios e, no tempo, também o seu desenvolvimento. De fato, a relação íntima e pessoal com Jesus Ressuscitado, vivo e presente, é a única experiência capaz de levar um homem a doar totalmente a sua vida a Deus, em favor dos irmãos”.
Nós bem sabemos como o Senhor nos seduziu, como o seu fascínio foi, para cada um de nós, irresistível, como afirma o profeta: “Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir. Foste mais forte do que eu e me subjugaste!” (Jr. 20, 7). Este fascínio, como tudo o que é verdadeiramente precioso, deve ser continuamente defendido, guardado, protegido e alimentado, para que não se perca ou para que não se torne uma vaga recordação, insuficiente para reger o contraste, com frequência, agressivo, das realidades do mundo. A intimidade divina, origem de todo o apostolado, é o segredo para custodiar permanentemente o fascínio por Cristo.
Antes de tudo somos Sacerdotes para estarmos “estreitamente unidos a Cristo, Sumo-Sacerdote”, unidos Àquele que é a nossa única salvação, que deve ser o Amado do nosso coração, a Rocha sobre a qual fundamentamos cada momento do nosso ministério, Aquele que nos é mais íntimo de nós mesmos e que devemos desejar mais que tudo.
Cristo Sumo-Sacerdote, nos “lança” dentro de si. Esta união com Ele, gerada pelo sacramento da Ordem, comporta a participação à Sua oferta: “Unir-se a Cristo supõe a renúncia. Comporta não querermos impor a nossa estrada e a nossa vontade; não desejarmos tornar-nos isto ou aquilo, mas abandonarmo-nos a Ele em todos os lugares e modos como Ele quiser Se servir de nós” (Bento XVI, Homilia da Santa Missa do Crisma, 09-04-2009). A expressão “estar unidos” recorda-nos que tudo o que fazemos não é obra nossa, fruto de um esforço voluntário, mas é obra da Graça que actua em nós: é o Espírito que nos configura ontologicamente a Cristo Sacerdote e nos doa a força de perseverar até ao fim nesta participação na vida e, portanto, na obra divina. A “vítima pura”, que é Cristo Senhor, remete ao insubstituível valor do celibato, que implica a perfeita continência pelo Reino dos Céus e a pureza que torna “agradável a Deus” a nossa oferta em favor dos homens.
A intimidade com Jesus Cristo e a protecção da Beata Virgem Maria, a “tota pulchra” e a “toda pura”, nos sustente no caminho quotidiano de participação à “obra de um outro”, na qual consiste o ministério sacerdotal, sabendo que, tal participação é portadora de salvação, antes de tudo, para nós que a vivemos: neste sentido, Cristo é a nossa vida!
Sempre no desejo de vos convidar a continuar a meditar sobre o grande dom do Sacerdócio, gostaria de juntar ainda a mensagem do Papa Bento XVI, em sua homilia da Quinta-feira Santa de 2006, onde afirma que “ser sacerdote significa ser homem de oração”. Se o trabalho pastoral não for precedido e acompanhado pela oração, perderá seu valor e sua eficácia. O tempo que empregamos no cultivo da amizade com Cristo, na oração pessoal e litúrgica – concretamente na dedicação de um tempo determinado e quotidiano à meditação e na fiel recitação da Liturgia das Horas –, é um tempo de actividade autenticamente pastoral. Por essa razão, o sacerdote deve ser, sempre, um homem de oração. Não nos iludamos: se falta a oração pessoal na vida do presbítero, a sua acção pastoral será estéril e correrá o risco de perder de vista o “primeiro Amor”, ao qual entregou incondicionalmente a sua vida, naquele dia memorável e cheio de generosidade, o dia da sua Ordenação Sacerdotal.
Na alegria do santo ministério sacerdotal de que por libérrima gratuidade Deus nos agraciou, auguro para todos fecundo ministério.
Malanje, 13 de Julho de 2015
†Benedito Roberto