Conferência Episcopal de Angola e São Tomé

Homilia na Missa do Sumbe

Homilia do Senhor Núncio Apostólico Dom Angelo Becciu
Santa Missa de encerramento do 1º Congresso Eucarístico Diocesano no Sumbe (22 Outubro 2006)

Caríssimos irmãos e irmãs, exultemos de alegria no Senhor, que hoje nos congregou nesta linda cidade do Sumbe, para celebrarmos solenemente a conclusão do Primeiro Congresso eucarístico Diocesano. Fadigas e cansaços de um ano inteiro; conclusões, empenhos pessoais e comunitários são, neste momento, colocados no Altar do Senhor.

A alma agradecida de toda a comunidade diocesana se eleva a Deus pelas inúmeras graças e bênçãos recebidas, pela experiência eclesial renovadora aqui vivida, pelo dinamismo missionário que perpassou pelas várias comunidades da Diocese.

Convosco exulta toda a Igreja de Angola, dignamente representada aqui por não poucos Bispos da Conferência. A eles, a minha cordial e fraterna saudação in osculo sancto.

Juntos exultemos e abracemos o vosso amado Bispo, Dom Benedito Roberto, que certamente está a viver de maneira profundamente marcada este dia, muito grande sobretudo para ele. A satisfação de ver coroado de êxitos o encerramento do ano eucarístico está acompanhada da alegria imensa e muito íntima de celebrar as suas Bodas de Prata Sacerdotais. Ele festeja, nesta celebração, e com ele festejamos todos os seus 25 anos de Sacerdócio. Dom Benedito, receba os nossos parabéns em Cristo, a Quem suplicamos que o conserve na Sua santidade.

Exulta, Igreja do Sumbe, porque com a celebração do Congresso Eucarístico, pudeste viver esta ocasião maravilhosa de aprofundar e de proclamar publicamente a fé no grande Mistério da Eucaristia.

1) Mistério admirável da nossa fé!

Assim aclamamos na Santa Missa, e com reverência nos prostramos perante um tamanho Mistério: o Mistério da presença real do Senhor! Com toda a tradição da Igreja, nós acreditamos que, sob as espécies eucarísticas, está realmente presente Jesus, em toda a sua divindade e em toda a sua humanidade. “Este é o meu Corpo entregue por vós; este é o meu Sangue derramo por vós”: o pão e o vinho tornam-se verdadeiro Corpo e verdadeiro Sangue do Redentor.

Fiéis ao seu mandamento – “fazei isto em memória de mim” – , renovamos em cada Eucaristia aquilo que o próprio Senhor fez na última Ceia. No sacramento do Altar, Jesus perpetua a sua presença viva e actuante no meio de nós, naquela mesma forma em que se entregou aos Apóstolos no Cenáculo.

Diante de um tal Mistério ficamos absorvidos, quase que confusos, nada podendo entender o nosso pensar meramente humano; permanecemos embasbacados no estupor.

Ficamos absorvidos, quase que confusos: Deus, o Criador, o Omnipotente, o Invencível, o Infinito, se faz pão para nós e é proposto para a nossa adoração! Como é possível isto? É um desafio à nossa inteligência. A nossa razão humana corre o risco de se desorientar, perdendo-se inclusive na refeição de uma tal verdade. Os nossos irmãos – não crentes –, os iluminados, podem facilmente rir-se de nós, exprimindo-nos menosprezo e pena. “Essas palavras são duras”: poderíamos também nós dizer, como o disseram alguns discípulos de Jesus, e voltarmos aos fáceis e medíocres pensamentos mundanos.

Em contrapartida, Jesus não nos pede que nós compreendamos; não nos pede análises lógicas; mas simplesmente convida-nos a termos confiança n’Ele e nas Suas palavras, confiando-Lhe toda a nossa vida. Pede-nos paradoxalmente um gesto, uma atitude típica das criancinhas, de quem é o Reino dos céus: fechar os olhos, curvar a nossa cabeça e pronunciar sem medos nem hipocrisias: “Creio em Ti, Senhor; creio em Ti; somente Tu tens palavras de vida eterna!”. Sim, ó Senhor, quereríamos gritar, o mais profundo de nós quereria gritar como o cego de Jericó: “Fazei, Senhor, que eu veja”; “Aumentai, Senhor, a nossa fé”.

Ficamos embasbacados no estupor: hoje, como Povo de Deus, como nova Jerusalém em festa à volta da Eucaristia, manifestamos a nossa admiração e, ao mesmo tempo, o nosso reconhecimento pelo dom que Deus nos deu: Ele vive no nosso meio; Ele está aqui connosco, presente e vivo. Enganamo-nos se pensamos procurá-Lo no céu que se perde nas nuvens ou nos pensamentos recônditos dos filósofos. Deus está aqui connosco; Ele é o Emmanuel, o Deus-connosco; Ele fixou morada no seio do Seu povo!

Como num acto espontâneo, nasce em nós o desejo vital de gritar: Senhor, sentimo-nos pobres e miseráveis, sentimos o peso dos nossos pecados, enquanto que, prostrados, estamos diante de Ti e, com os Queribins, os Anjos e os Arcanjos Te adoramos e Te aclamamos: Santo, Santo, Santo.

2) A Eucaristia é fonte da nossa missão

A Eucaristia é, pela fé, um mistério de intimidade! Por isso se torna irresistível em nós a beata vontade de consumir o nosso tempo, aquele tempo mais precioso, em adoração do Pão eucarístico. Mas “desta intimidade, que é dom pessoalíssimo do Senhor – nos recorda o Papa –, a força do sacramento da Eucaristia vai para além dos muros das nossas Igrejas. Neste Sacramento, o Senhor está sempre em marcha para o mundo” (Homilia do Corpus Domini, Roma 2005). Adorar a Eucaristia é viver a missão de Cristo, Pão partido para a salvação do mundo; não se pode estar com Ele, sem se andar com Ele. No Pão eucarístico está o Ressuscitado. Ele torna presentemente actuais e penetrantes as suas palavras: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho”.

Hoje, em toda a Igreja, celebramos o Dia Mundial das Missões. Somos todos chamados a rezar pedindo mais vocações para a Igreja e a reflectir sobre a obra dos Missionários e das Missionárias. Homens e mulheres, vindos de longe ou de perto; homens e mulheres que deixaram suas famílias, suas terras e seus hábitos, para simplesmente obedecerem ao mandato do Senhor: “Ide a todo o mundo”. Porque são verdadeiros adoradores da Eucaristia, encontraram e encontram a coragem de percorrer as vias do mundo para anunciar a Boa Nova. A eles apresentamos os nossos profundos agradecimentos e reconhecimento. Graças à vossa obra e ao vosso sacrifício, chegando mesmo a derramar o sangue por Cristo, que Angola, a Angola de hoje pode sentir-se orgulhosa da sua fé cristã. Com gesto muito significativo de homenagem, o Congresso enalteceu as obras grandes dessas mulheres e homens que se fizeram pequenos para o Reino. Importa sublinhar que esses Missionários e Missionárias vêm a Angola, como todos os Missionários da Igreja se deslocam para as mais longínquas terras do mundo, com o primário e fundacional desejo de ajudar o Povo, prestando-lhe todos os serviços possíveis, interessando somente o bem da pessoa humana. Não há, portanto, interesses a defender nem business a fazer. Pensemos em tantos homens e mulheres que arriscam as suas vidas, indo com coragem extraordinária a zonas afastadas, isoladas e perigosas, com o único anélito de partir e partilhar o Pão eucarístico, o pão da salvação, o pão do amor que se torna ajuda concreta com a criação de escolas, de centros médicos, com iniciativas várias que buscam elevar os mais pobres e marginalizados.

Apraz-me, aqui e agora, saudar com distinta cordialidade e reconhecimento as Autoridades políticas presentes e representadas nesta Assembleia litúrgica, muito particularmente o senhor Governador da Província e seus colaboradores, a quem agradeço a digna hospitalidade que nos reservaram. E com a mesma vitalidade e pertinência, lanço este apelo: sustentai a obra dos missionários; tornai mais simples o seu ingresso neste País! Não podeis confundi-los com os trabalhadores de empresas. Eles não têm outra ambição senão a de aqui viverem trabalhando por Cristo para o bem dos angolanos.

A força, o entusiasmo, a perseverança e as boas motivações para todo o pregador do Evangelho nascem e se renovam na adoração eucarística. Estamos certos de que o Pão partido alimentou e continua a alimentar a vida de muitos catequistas, vivos e mortos, que nesta Diocese lançaram e continuam a lançar a semente viva, que é Cristo. A todos os catequistas de 25 anos ou mais de empenho catequético vão as nossas felicitações. A Igreja, caros catequistas, tem por estima o vosso testemunho entre os irmãos e agradece todo o trabalho realmente incomparável e imparável, que tendes feito. Deus abençoe as vossas famílias e vos dê a justa recompensa!

3) A Eucaristia é fonte do nosso dinamismo social

“Na Eucaristia – lembra-nos, uma vez mais, o Santo Padre – Cristo é realmente presente no nosso meio. A sua presença não é estática. É uma presença dinâmica, que nos conquista, para nos fazer sua pertença e símiles a Ele” (Bento XVI, Homilia, Congresso Eucarístico de Bari, 2005). Jesus vem ao nosso encontro, transforma-nos, faz de nós um outro Cristo. O nosso coração dilata como o d’Ele. Ele impele-nos, individual e comunitariamente, a comportarmo-nos de maneira irrepreensível, assumindo o seu pensar e o seu agir, os seus ensinamentos e o seu caminho de vida; numa só palavra, a viver amando: amando Deus e o próximo!

A quem hei-de amar, e como amarei este irmão que chora, porque não tem o que comer, não sabe como vai alimentar os seus filhos? Como amarei este irmão assolado pela morte fácil, por carências de estruturas mínimas sanitárias? Prostrados no silêncio da adoração eucarística, enche-nos o coração um forte grito de dor e de angústia de muitos irmãos nossos, para quem sentimos o imperioso dever e apelo a fazer alguma coisa. Ninguém adora verdadeiramente a Cristo eucaristia e, contemporaneamente, permanece indiferente a injustiças sociais e à gritante pobreza provocada unicamente pelo cego e repugnante egoísmo humano.

Angola vai vivendo momentos de nova economia, que aqui e acolá é apontada como estando em grande crescimento. Nós, como Igreja, como homens habituados a partilhar o pão eucarístico, pedimos que não se desperdice, de modo algum, este presente histórico de Angola. Pedimos que muitos e mais comensais possam sentar-se à mesa comum dos grandes recursos e riquezas deste País. Há tantos Lázaros que reclamam por um pedaço de pão! Há tantos Lázaros querendo a sua dignidade de filhos de Deus! Faremos nós mais Lázaros? Haja espaço, mais espaço na mesa das oportunidades!

Sejamos todos homens de e para a Eucaristia. Os trabalhos e as conclusões do Congresso devem ser valorizados nas nossas vidas, nas famílias cristãs e nas nossas comunidades. Não desperdiçamos tantos dons recebidos. A vós, Sacerdotes, foi confiado a nobre missão de oferecer Cristo ao mundo. Oferecei-vos vós mesmos, como Cristo e com Cristo, visitando-O repetidamente, adorando-O profundamente e celebrando-O santamente. Não vos percais em coisas supérfluas. Sede eucaristia viva com a vossa vida fraterna e santa.

Irmãs e irmãos caríssimos, agora retomaremos a estrada das nossas casas e a fadiga da vida quotidiana. Invoquemos o Senhor com os discípulos de Emaús: “Fica connosco, Senhor, porque vai caindo a noite e o dia já está no ocaso”. Fica connosco, e desaparecerão as trevas do mal! Fica connosco, e as nossas estradas serão as tuas estrasdas. Fica connosco, e as nossas casas serão a Tua casa. Fica connosco, e encontrarão conforto os sofrimentos dos doentes, a solidão de jovens e anciãos. Contigo, venceremos as tentações, os medos, as angústias.

Que Maria, Nossa Senhora da Conceição, Padroeira desta Diocese, ela que foi “verdadeira Mulher eucarística”, nos ajude a abrir sempre e mais todo o nosso ser à presença de Cristo!

Povos do Kwanza Sul e da Comuna de Calucinga, sede invictos portadores da Mensagem eucarística por esta imensa e cara Angola. O Senhor vos abençoe, Amem.