Conferência Episcopal de Angola e São Tomé

Homilia na Missa para os Religioso

Estimados Religiosos e Religiosas,

Sinto muita alegria em me encontrar convosco na celebração desta Santa Eucaristia enquanto termina a vossa semana de estudo e reflexão sobre a Vida Consagrada e os desafios que a Cultura Angolana lhe coloca, ou seja, o diálogo da Vida Consagrada versus Cultura nas suas diversas vertentes e implicações.

Trata-se de um tema da maior importância nos nossos dias que pode e deve contribuir para que a Vida Consagrada seja vivida na pureza dos diversos carismas apresentando-se aos homens de hoje como um verdadeiro seguimento de Cristo e autêntico testemunho da potência do Reino de Deus actuando no mundo mas na perspectiva do futuro, isto é, antecipando a escatologia, o mundo que há-de vir.

Este seguimento de Cristo, permiti que vo-lo recorde, tem nos Evangelhos Sinópticos um sentido muito especial. Mais do que o seu significado original, os Sinópticos usam o termo no sentido de compromisso total na actividade evangelizadora do Mestre que é a implantação do Reino de Deus.

Implica deixar tudo e seguir incondicionalmente o Mestre. A sequela de Cristo não é sinónimo de acompanhamento ou de escolta de honra do próprio Mestre, mas imitação dos seus comportamentos, repetição das suas escolhas. Seguir é a mesma coisa que entrar na escola (Mt 11,19), ista é, levar avante a obra que Ele começou com tanto sacrificio. Não admite cálculos nem sequer relativamente aos familiares a enterrar (Mt.8,22): quem quizer vir após mim, tome a sua cruz e siga-me... Eles deixaram as redes e seguiram-n'O (Mc 1,18; cf. Mt 16 ,24). Tudo é relativo frente ao absoluto do seguimento de Cristo. Neste sentido, negar-se a si mesmo, libertar-se, seguir os conselhos evangélicos é uma garantia de liberdade, condição para uma entrega total que relativiza todos os laços humanos e terrenos.

Jesus não quer nem pede a renúncia B própria personalidade nem a própria realização, ao êxito da carreira ou muito menos B livre opção do estado de vida ou profissão. O que Ele quer é ajudar-nos a deslocar o próprio EU de uma posição incorrecta, isto é, quando este se tornou centro em torno do qual tudo gravita, planos, preocupações, desejos e temores. Dar-se conta de que há um desígnio do Deus de amor e uma missão a cumprir, é muito mais do que a mera disjuntiva de salvação ou condenação pessoal. O que Jesus pretende é ser Ele o centro do nosso próprio EU, centro absoluto de referência da mesma forma que o Pai o é para Ele.

Na perspectiva de análise da Vida Consagrada frente aos desafios da cultura envolvente, lembrem-se sempre os Religiosos que já desde o Vaticano II o discurso incidiu essencialmente sobre a adequada renovação da vida religiosa.

Na verdade, o Decreto Perfectae Caritatis (28 de Outubro de 1965) usa essa expressão no seu subtítulo. E isso vem precisamente na sequência da Lumen Gentium (21 de Novembro de 1964) que afirmara que «o estado de vida constituído pela profissão dos conselhos evangélicos, não pertencendo embora B estrutura hierárquica da Igreja, pertence todavia inseparavelmente B sua vida e B sua santidade» (LG 44). Isto tem que ser posto em evidência no momento em que se pretende reflectir sobre a Vida Consagrada e os desafios da Cultura em que a mesma tem que encarnar.

Este discurso leva-nos inelutavelmente ao problema da Identidade da Vida Consagrada no mundo angolano em transformação em que os Religiosos devem primar por interpretar de forma superlativa o carisma respectivo. Quer dizer, os Religiosos têm que aparecer no ambiente cultural em que estão inseridos, verdadeiros homens e verdadeiras mulheres de Deus cuja presença seja reveladora da presença de Deus. As armas a terçar não são, portanto, as do saber acumulado ou dos argumentos esgrimidos B base da sabedoria adquirida nos livros das escolas ou centros de formação: o diálogo, para ser fecundo da parte dos membros dos Institutos de Vida Consagrada, exige antes ser feito no terreno da santidade que vai sendo atingida em virtude de uma cada vez mais profunda identificação com o carisma do Fundador.

Um último pensamento nesta necessariamente breve alocução que vos dirijo, caríssimos Religiosos, vai na perspectiva da tão chamada Nova Evangelização.

Para que se estabeleça um fecundo diálogo entre a Vida Consagrada e a cultura envolvente neste momento que Angola atravessa é urgente que vos apresenteis como verdadeiros imitadores de Cristo. A verdadeira Nova Evangelização tem que ser feita dentro de uma grande conversão ao Evangelho numa leitura simples mas não em acomodações oportunistas. O fermento cristão está na capacidade de ele interpretar as zonas evangelizáveis das pessoas e das culturas, estimulando B conversão.

Caríssimos Religiosos e Religiosas, oxalá as reflexões desta semana da Vida Consagrada vos ajude a ler e interpretar de forma evangélica os sinais dos tempos, de modo que a vossa presença profética na Igreja que está em Angola, penetrando em odor de santidade na cultura dos diversos povos no meio dos quais viveis, constitua uma interrogação permanente para os mesmos e seja a base de um contínuo e fecundo diálogo cujo objectivo é fazer com que o Evangelho ilumine as zonas escuras das culturas valorizando tudo quanto de positivo nelas existe.

Sede, por isso, fiéis aos carismas dos vossos Fundadores, segui a Cristo incondicionalmente e pregai pela palavra e pelo exemplo de vida que só há uma coisa necessária: seguir a Cristo e estabelecer o Seu Reino entre os homens.

Assim seja!