Homília no Curso de Formação do Clero
Homília na Missa de abertura do Curso de Formação permanente do Clero em Angola
Luanda, 9 de Janeiro de 2007
Exmos. Senhores Bispos,
Caríssimos sacerdotes,
Damos início hoje, com esta celebração eucarística, ao curso de formação do Clero em Angola.
Parece-me que é a segunda vez que se organiza um encontro deste género a nível nacional. É pois inútil dizer-vos que esta iniciativa merece todo louvor e encorajamento.
Um agradecimento particular dirijo B Comissão Episcopal do Clero que promoveu esta ideia.
Agradecemos também e damos-lhes as mais calorosas boas-vindas aos dois sacerdotes vindos propositadamente de Roma, o Reverendíssimo Padre Giuseppe Magrin e o Reverendíssimo Padre Fernando Dominques, que serão os animadores principais deste encontro.
A realização deste curso responde Bs solicitações insistentes encontradas nos documentos pontifícios como a “Pastores dabo Vobis” e Bs orientações dos Dicastérios Romanos, como a Congregação para o Clero e para a Evangelização dos Povos.
A necessidade de formação permanente e de actualização periódica corresponde obviamente, Bs exigências irrevogáveis da nossa missão sacerdotal, sobretudo nos tempos actuais onde os desafios culturais da sociedade hodierna põem B dura prova a nossa preparação cultural, teológica e espiritual.
É direito dos nossos fiéis verem-nos B altura dos tempos actuais e com uma bagagem cultural que não desiluda as suas expectativas. Se um bom advogado, um bom médico, um bom arquitecto ou um engenheiro consciente não podem separar-se dos livros, tanto menos deve fazê-lo um sacerdote. «Fazei de maneira a dedicar algum tempo cada dia, ou ao menos alguns minutos, ao estudo das ciências eclesiásticas». Esta é a recomendação que recebemos nos nossos seminários e é a recomendação que deixo aqui a cada um de vós.
A formação permanente é uma exigência inadiável cuja urgência, sobretudo em Angola, onde, B semelhança de tentos países africanos, as condições sociais, a pobreza das nossas estruturas eclesiais e a própria situação económica do clero não permitem ter os instrumentos indispensáveis e normais para uma apropriada e pontual actualização.
Ao participar em várias celebrações eucarísticas em Luanda como em outras dioceses de Angola fico impressionado pela multidão de fiéis que de maneira alegre e em atitude de recolhimento manifestam a sua fé, mas, mais de uma vez me coloquei a seguinte questão: onde está a classe intelectual? Onde estão os numerosos jovens regressados do exterior depois de tantos anos de estudo? Porquê não vêm B igreja? As respostas podem ser múltiplas, e, não será última aquela da influência ideológica herdada do marxismo, mas pode haver a amarga constatação de que nas nossas liturgias e sobretudo nas nossas pregações esses indivíduos não encontram palavras ou aquela profundidade B altura das suas inquietações intelectuais.
Será que já nos interrogamos se o conteúdo e a duração das nossas homilias são adaptadas Bs expectativas da classe intelectual moderna? A classe intelectual é um sector que, me parece, ainda não está no centro das preocupações pastorais e sobre o qual gostaria de chamar insistentemente a atenção dos bispos e de vós sacerdotes.
É claro que para a Pastoral dirigida aos homens da cultura temos necessidade de padres bem preparados e amantes do saber. Daqui, caros amigos, a necessidade de uma formação rigorosa e adequada nos nossos seminários e que deve continuar após a ordenação sacerdotal.
Como orientar a formação permanente dos sacerdotes? Que temas se devem abordar?
É evidente que os sectores clássicos a privilegiar são a espiritualidade, a doutrina, a formação humana e a pastoral. Caberá aos organizadores fazer a necessária programação.
Não quero entrar aqui no mérito das opções e das questões, que, aliás não me dizem respeito, mas quero somente salientar o sentido verdadeiro e último de cada esforço cultural nosso para sermos pastores B altura dos tempos actuais. Em suma, aqui B volta deste altar, queria dar uma resposta B minha, e, imagino, também vossa interrogação: para que serve aprofundar os meus conhecimentos culturais, embelezar-me de títulos académicos se o meu objectivo último não é aquele de tornar-me santo?
O exemplo dos Santos Padres ensina-nos que a grandeza de um Pastor, a capacidade de fazer germinar nas almas a semente vital e inexaurível da doutrina cristã, não se mede somente pelo número e pela importância dos seus escritos ou das suas pregações eruditas mas, sobretudo, pela capacidade de fazer que tal doutrina se torne vida em muitas pessoas. A teologia – a verdadeira teologia – enriquece a consciência dos fiéis e ajuda a fomentar nas almas o desejo de santidade e de apostolado, é um saber vital que, promovendo no cristão, sob o impulso do Espírito Santo, a consciência de identificação com Cristo, desenvolve ao mesmo tempo o empenho para união com Deus e intensifica o zelo pelas almas.
Na nossa inclinação para a santidade devemos compreender que se deve valorizar, ao máximo possível, o tempo que o Senhor nos dá, que se deve salvaguardar a todo o custo o tempo para dedicar-se ao estudo, e que a nossa ciência não é mera erudição, mas é sabedoria que é alimentada de sã leitura e de constante meditação e assimilação da Palavra de Deus.
Ser culto e ser santo é um binómio que deve acompanhar a nossa vida de sacerdotes e que nos ajudará a tornar atraente a mensagem evangélica a oferecer B nossa gente.
“Ó santos ó fracassados”: escrevia alguns anos atrás em um dos seus livros o notável teólogo italiano P. Raniero Cantalamessa. O propósito da santidade é o “consummatum est” que cada sacerdote deve desejar poder dizer no fim da sua vida. Se falharmos neste “consummatum est” perdemos o nosso tempo e, em certa medida, fizemos também perder aos outros.
Recordando e parafraseando São Paulo aos Coríntios (1 Cor. 13) podemos dizer: “Ainda que falasse todas as línguas do mundo, mas não tivesse amor, isto é, não tivesse a santidade, para que serve toda a minha ciência?”
Que estes dias sejam então dias intensos de enriquecimento intelectual e de progresso no caminho para a santidade .
Ouso augurar-vos, juntamente com os dignos mestres que partilharão as suas lições, que haja espaço também para o Espírito Santo, o verdadeiro e autêntico mestre que sabe inspirar as nossas acções e suscitar o gosto pela sapiência e pelas coisas de Deus.
Que Maria, Mater Sapientiae, esteja ao vosso lado e vos ajude a levar a bom termo o vosso propósito de aperfeiçoamento do conhecimento d’Aquele que é a única Verdade pela qual vale a pena dar o melhor da nossa inteligência. Assim seja.