Conferência Episcopal de Angola e São Tomé

Profissão de Votos das Irmãs Filhas de Jesus

Luanda, 28 Janeiro de 2007

Nem aplausos nem sucesso é garantido ao enviado de Deus, ao Profeta.

“Levantaram-se, expulsaram Jesus da cidade e levaram-n’O até ao cimo da colina sobre a qual a cidade estava edificada, a fim de O precipitarem dali abaixo”.

Assim nos diz o Evangelho que acabamos de escutar. É uma reacção furiosa e inqualificável a atitude dos conterrâneos de Jesus. Diante das suas palavras sentiram-se escandalizados e tentaram eliminá-lo fisicamente.

O quê que Jesus teria dito de tão grave?

Jesus está no início do seu ministério e quer mostrar logo o carácter da sua missão. Tendo entrado na Sinagoga, como fazia todo bom judeu ao sábado, lê diante de todos o passo da Escritura que diz: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres”. Acrescenta de seguida a frase surpreendente: “Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir”.

Foram estas as palavras que provocaram a ira e o escândalo dos seus ouvintes. N’Ele portanto repousava o Espírito do Senhor. Por outras palavras, era Ele o Messias esperado, o Ungido do Senhor.

Os seus concidadãos, hebreus piedosos, não podiam tolerar tal afirmação. Conheciam bem Jesus e a sua família. Era gente pobre como eles que procurava duramente ganhar o pão de cada dia. Como podia o filho de José apresentar-se como o Messias? O Messias que esperavam era de outra categoria e não alguém como este jovem sem emprego e de condição pobre. O Messias por eles esperado devia ser um rei. Devia chegar rodeado de glória e de homens fortes, capazes de libertar o povo hebraico do domínio dos romanos e restituir ao povo eleito de Deus liberdade, riqueza e glória. O quê que poderia dar este jovem chamado Jesus? Nada. Pior ainda, havia ofendido o povo ao recusar operar milagres, que, como se dizia havia feito nas aldeias vizinhas. Daqui a reacção dos nazarenos: que Jesus seja banido para sempre da cidade!

Pobre gente “de cerviz dura” e incapazes de reconhecer os sinais de Deus! Eram sim fiéis à escuta da Palavra de Deus, mas esta não devia perturbar as suas certezas e o seu modo de ver as coisas de Deus.

Diante da cegueira e da fúria dos seus conterrâneos, Jesus não desanima, não se desencoraja, não muda a sua palavra. Diz o Evangelho: “Jesus passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho”.

esus sofre, mas continua em frente. Sofre, não porque não recebe aplausos dos seus conterrâneos, mas porque esses rejeitam a salvação. Apesar disso, Ele continua o Seu caminho, fiel à missão confiada pelo Pai, pronto a receber incompreensões e rejeições. O amor ao Pai e o desejo de entregar-se pela salvação da humanidade é muito grande para parar diante das primeiras hostilidades.

Caros fiéis,

Também aqui hoje está presente o Espírito de Deus.

Sobre todos nós poisou no dia do baptismo, no dia da Confirmação e para nós padres, também no dia da Ordenação sacerdotal. Todos nós recebemos o dom de anunciar “a Boa Nova aos pobres”. Sobre todos nós recai a responsabilidade de nos deixar guiar pela força do Espírito Santo para sermos fiéis à missão que nos foi confiada.

Hoje porém, de modo particular o Espírito do Senhor está presente nesta comunidade porque suscita do coração de cinco jovens angolanas um SIM forte e claro através do qual manifestam diante da Igreja o desejo de pertencer totalmente a Deus e tornarem-se anunciadoras da Boa Nova de Jesus.

Estas jovens entusiastas, em pleno gozo das suas forças, querem gritar ao mundo: somos de Deus e queremos pertencer por toda a vida a Deus!

Emitem os três votos : o voto de Obediência, de Castidade e de Pobreza. Numa palavra renunciam a tudo porque Deus é a sua riqueza. Têm já experiência que o amor de Deus enche os seus corações. Sabem que a felicidade que vem de Deus é superior a qualquer outra que se possa ter na terra.

Nós, caríssimas professas, ficamos edificados diante da vossa coragem, diante da vossa decisão. Nos alegramos e agradecemos ao Senhor que continua a fazer sentir a força do Seu Espírito no meio do seu povo.

Mas como explicar ao mundo o significado da vossa opção? Como explicar às pessoas que vos observam, até mesmo aos vossos familiares e amigos? Para quem não crê, para quem pensa que a vida é só divertimento e busca de dinheiro, de sucesso, de poder, de glória humana, vós passais por pessoas sem juízo. Pessoas que estragam a própria vida.

Se quereis dar uma resposta convincente não bastarão simples palavras, devereis acompanhá-las com o testemunho de uma vida coerente e alegre.

Dizei com a vossa vida que obedecer não é reduzir a própria personalidade, mas é superar os limites pessoais para integrar-se no grande e maravilhoso projecto que Deus tem para cada uma de vós.

Cantai com a vossa alegre existência que a castidade não oprime o vosso coração, mas torna-o livre e aberto ao amor autêntico e desinteressado por todos.

Gritai sempre que fazer-se pobre por Deus é experimentar a verdadeira liberdade do coração e tocar com a mão a Paternidade carinhosa de Deus que “alimenta as aves do céu” e “veste os lírios dos campos”.

Enfim, dizei-nos com a vossa vida, que Deus vos basta e que pode bastar a cada homem que “O procura de coração sincero”.

Com o vosso estilo de vida não vos canseis de nos recordar a meta final à qual somos destinados: o paraíso!

Fortificadas pelo Espírito do Senhor e com Ele identificadas, não ficareis fechadas nas vossas casas, mas andareis pelo mundo a anunciar a alegre notícia aos pobres.

Olhai à vossa volta: quanta pobreza e quanta miséria moral e social! Olhai Luanda: uma cidade que procura ser moderna, com um programa de grandes obras para torná-la bela, mas com milhares de pessoas que ainda vivem em condições miseráveis e em habitações que não merecem o nome de casas. Diante de tal situação não podemos fechar os olhos e não podemos não encorajar as autoridades governamentais a multiplicar os seus esforços para realizar os programas anunciados de garantir casas seguras e dignas para todos os habitantes, sobretudo para os menos favorecidos.

Ireis ao mundo, caras Irmãs, para serem anjos da misericórdia e sinais do amor de Deus. Seguireis o caminho traçado pela Igreja em Angola. Vós, em conjunto com todas as consagradas espalhadas por toda Angola, procurareis dar uma alma às várias estruturas educativas e sanitárias criadas para ajudar os mais necessitados e esquecidos da sociedade. Com o vosso amor procurareis suprir aos poucos meios que tereis à disposição. Ajudareis a Igreja a ser sinal visível e eficaz do amor de Deus aos homens.

Radicadas no Carisma do vosso Instituto, as “Irmãs Filhas de Jesus”, dareis um especial espaço à educação e à instrução da juventude. Os jovens angolanos têm necessidade de vós e das vossas obras. Milhares de rapazes e raparigas continuam sem estudar porque não existem escolas suficientes. É uma praga que deve desaparecer o mais rapidamente possível. A Igreja tem no coração o futuro desses jovens. Com a sua rede de escolas espalhadas em todo o país e com a Universidade católica manifesta o seu amor pela juventude angolana e o seu desejo de colaborar com o Estado na solução do grave problema de escolarização.

Diante das dificuldades, das incompreensões e talvez das hostilidades não vos desanimeis. Deus estará convosco. Recordou-nos na primeira leitura o Profeta Jeremias: Deus estará próximo daqueles que foram escolhidos por Ele.

Como Jesus continuai corajosamente o caminho iniciado. Identificadas com Jesus, podereis ser rejeitadas e com Ele viver momentos de cruz. Tudo será fonte de alegria, porque tudo concorrerá para salvação do mundo. Ele ressuscitou e vive no meio de nós. Não devemos ter medo de nada. Ele está connosco. Ele está na Sua Igreja.

Que Ele vos abençoe e convosco abençoe as vossas famílias, o Instituto das Filhas de Jesus que vos recebe, e todas as pessoas que vos são queridas.

Maria, Mãe de Jesus, esteja sempre a vosso lado e vos ajude a ser como ela dom perene ao Senhor e à sua Igreja. Assim seja!